exercícios
um, dois, uff
há um tempo exercito um texto sobre exercícios, a dolorida atividade de se exercitar. desde criança, não gosto. não corria rápido, tinha medo de subir no trepa-trepa, de voar se o balanço pegava impulso. no pega-pega, se eu era a pega, ficava horas (na percepção do pequeno) correndo sem parar com a certeza de que nunca iria conseguir pegar ninguém. não há ditado de lebre e tartaruga que me salvava, a resistência também era baixa. não conseguia passar o bastão para ninguém. tormento: quando decidia-se a ordem de qualquer brincadeira com quem-chega-por-último. eu já desistia, última, serei eu. nem precisa! mas ia, porque criança gosta é de inventar jogo antes do jogo. e última era. sem surpresas, e prazer das outras crianças em risos. quando chegaria a hora de não precisar nunca mais correr, me exercitar?
exerci a liberdade da não-educação-física muito cedo. aprendi a burlar os professores, a ter cólica, a fazer corpo-mole, a ficar na quadra cinco minutos e vazar logo pras beiradas, me fazer de torcida, de goleira franga, de gandula imprestável. se havia alguma menina a querer dançar, ia atrás, mas também não era boa. sempre me impressionava com as meninas-líderes, as coreografas: como elas sabiam dançar assim? inventavam as danças elas mesmas? treinava muito para não fazer feio e fazia o mínimo na hora de apresentar. não surpreendi, também não fui vaiada enquanto dançava (música de cowgirl, dança do ventre, ABBA, spice girls, rouge). no ensino médio, nunca joguei nada, só “dama". jogava fofoca com alguma amiga e mexia a pecinha, desinteressada, para frente, para trás. tirava sempre R de regular. até fiz recuperação de educação física: escrevi numa folha almaço as regras do vôlei.
tentei fazer esportes de todos os tipos, saía. não havia ambiente acolhedor, professor paciente o bastante para minha descoordenação, minha lentidão, minha falta de aptidão e de vontade, da minha certeza que, hora ou outra, eu ia empacar, atrapalhar o time, fazer feio.
toda vez que faço academia, me alongo. a única atividade física que eu senti prazer na adolescência foi yoga. yoga era eu e meu corpo, nada flexível, e o tempo necessário. sem correria. sem quem-chegar-primeiro. yoga me ensinou o mínimo sobre o prazer do corpo: o de alongar. na academia, pouca gente se alonga. fico espiando. assim como eles espiam as minhas cargas não-tão-pesadas, o meu cardio bem mais-ou-menos, eu fico de olho no corpo deles que vai ficando duro.
adulta, fiz um ou dois anos de kung fu. saí porque tinha um clima de competição que me lembrava a minha infância. gostaria de ser um pouco mais resistente a essas besteiras, mas vai desgastando, e a vantagem de ser adulto é também a de poder desistir. no kung fu o alongamento é essencial. uma série de exercícios muito gratificantes, um deles era de mover os quadris em forma de bola. kung fu é quadril, os mestres diziam, enquanto rebolavam, bem rígidos, para frente e para trás em suas roupinhas características. no kung fu, muitas posições são com os joelhos levemente dobrados, o quadril para baixo, o core firme. tento sempre lembrar de fazer esse rebolado depois de puxar peso, me sinto toda endurecida e lembro de destravar os quadris. não sei dançar, mas seria uma tristeza se eu não conseguisse sequer tentar rebolar.
os caras grandões da academia andam como gigantes, sem molejo, o que custa soltar um pouco esses quadris? o que dói nessa gente fazer um alongamento que presta, cinco minutos de atenção, sua coluna agradece. agradeço aos meus anos de yoga, às minhas professoras, por ter me ensinado certas posições que posso repetir livremente. decorei-as, lembro das recomendações delas, grudadas no meu pensamento (o centro firme, espátulas abertas), garanto-me nelas. não faço mais yoga, mas vou sempre de gato-vaca, cachorro-olhando-pra-baixo e outros ásanas que esqueci o nome, mas o corpo guarda. qualquer tempo de yoga te ensina um pouco — seria mais fácil se tivesse yoga e alongamento na educação física.
sou paranoica na academia, penso: eles me veem alongando assim e me acham idiota. nem pego tão pesado assim. nem corro para alongar antes-e-depois. alongo porque essa é a minha recompensa: a única. todo o resto, esforço, esquecimento, dor, birra interna. dentro de mim, enquanto me dirijo ao próximo aparelho, estou com cinco anos jogada no chão do supermercado batendo os bracinhos e as perninhas berrando sem lágrimas não-não-não.
diminuí o tempo do meu treino de peso para poder fazer mais cardio e manter o tempo do alongamento. parece coisa de preguiçoso, mas a verdade é que eu não aguento ficar uma hora e meia na academia. não aguento, não quero, a birra se expande para fora. tiro alguma coisa aqui e acolá, mas deixo tempo para alongar, e é só cinto minutos. o melhor cinco minutos daquela hora.
outro dia me deparei com este corte de uma entrevista de Marguerite Duras de 1985 em que a escritora profetiza os nossos tempos. Duras diz, mais ou menos: eu creio que homem será literalmente afogado na informação, na informação constante sobre seu corpo, seu devir corporal, sua saúde, sua vida familiar, seu salário, sobre seu lazer.
aterrados, afogados em milhares e constantes informações sobre o nosso corpo e a nossa saúde. Duras fala de TV, não pode imaginar que levaríamos conosco uma pequena tv onde quer que estivéssemos, nos guiando, constantemente, e talvez ordenando, tal nossos pais, como se fôssemos criancinhas em eterna fase de treinamento: falam sobre nosso corpo, sobre como nosso corpo deve ser, como devemos nos exercitar, nossa saúde, a forma como ganhamos ou gastamos dinheiro, nosso lazer. de repente, todo mundo pára de beber, de repente todo mundo começa a correr, de repente exercício é pegar peso até falha muscular, fica tudo misturado. às vezes de birra, às vezes aceito: depende de quem vem o conselho. por causa da Raquel Bressanini (@raquelbresaninini no intagram) entendi melhor todos os conceitos da musculação, da falha, do treino, sem achar que é só coisa de homem burucutu babaca que me olha feio na academia. ainda assim, um excesso paira no ar: excesso de informação constante, como disse Duras, antes da internet ser comum.
me aborrece pois não há nenhum excesso de informação sobre o alongamento, eu até já decorei que a recomendação da OMS é de 150min semanais de exercícios no mínimo, mas nada sobre como destravar as articulações. sei que a yoga teve seu auge e agora tá até difícil de achar, e que o pilates, sem asanas e músicas indianas e incensos e meditação e namastê, meio que derrubou yoga do ringue, mas pilates também é muito caro. uma mãozinha em direção ao pé não machuca ninguém, talvez só o ego de alguns que levantam 180kg e a coluna estancada no meio do caminho.



Sempre detestei alongar, nunca consigo alcançar os pés, tudo dói, tudo queima, fora a preguiça... Vou tentar me inspirar em você nas próximas idas na academia (que também nunca quero que se alonguem demais, daí também evito qualquer coisa que seja mais "facultativa")
Alongar é a melhor coisa que existe, amo tb… e não desista da yoga, que te faz feliz! Procure, não existe professor(a) perfeito(a) tb… A gente sempre vai achar alguma coisa, por exemplo, eu gostaria q tivesse mais tempo de shavasana, que é a recompensa maior da yoga, aquele momento mágico que vc está em sintonia com vc mesma, e sempre acho pouco o tempo da minha professora de yoga, mas continuo… hahaha! Te amo, continue se exercitando como pode, e volte na yoga 🧘