melodrama
um texto curto sobre O Agente Secreto em que cito Ainda Estou Aqui, Tubarão e Borges, Caio F e Conceição Evaristo, Graciliano Ramos e Almodóvar, western e novelas, barbies e pistolas
olá, queridos amigos e inscritos, sumi e voltei. tive que parar tudo que estava fazendo para me concentrar na minha dissertação. depois que eu entreguei, também, foi difícil voltar a escrever. quinta-feira é a minha defesa (e também o meu aniversário, veja bem). para me distrair, volto a este confortável espaço. espero que você não se importe com meus emails quiçá inoportunos na sua caixa de entrada novamente.
pensei em retornar aqui algumas vezes, disparada por algumas experiências. porém, não sobreviveu em mim a vontade. hoje, cedo ao impulso de escrever depois de ter assistido O Agente Secreto. voltar a publicar é difícil — a vergonha que ia se dissipando com a regularidade da publicação volta tal onda grande que rebenta depois das marolas navegáveis. esse texto pode ter algum spoiler sobre o filme, mas como bem diz meu amigo Cadillac, spoiler não era um problema quando a gente assistia novela (e sim parte da experiência).
o final de Agento Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não agradou a gregos e troianos — mas, mais uma vez, fez entrar o falso cavalo-de-pau no campo de disputas dessa tão querida internet. há muitas perspectivas por aí, mas o meu incômodo não é cortar o fim da história e pular para o presente, e sim a recusa do melodrama que já estava todo armado, esperando o golpe final. o golpe final poderia ser, claro, o fim de Marcelo/Armando; mas o que mais me incomoda é que na conversa final, o filho diz que não tem memória do dia que o seu pai não apareceu, e nem parece ter do pai, mesmo tendo rodado de carro com ele (uma cena lindinha!). a única coisa que ficou na memória dele é o medo e o desejo de assistir a Tubarão.
talvez o meu incômodo tenha relação com a minha primeira memória: melodramática, é uma visão de uma cisão, uma mudança que ocorreu na minha vida, e de minha mãe, aos meus três anos de idade. é também entremeada de cultura pop, como o filme Tubarão, mas no meu caso, tem relação com barbie.
não comparo barbie com Tubarão à toa: estou aqui para falar de melodrama.
qualquer crítica ou resenha do filme de Kleber que você ler vai te dizer que o que ele faz é se apropriar dos gêneros hollywoodianos (e, teoricamente, subvertê-los/traduzi-los para o brasileiro ou algo do tipo). quais gêneros? filme de suspense, western, ação, corre-corre, tiro de revólvi, investigação, corpo-caindo-na-represa, etc. eu vi no tuíter que debocharam de uma review no letterboxd que chamava Kleber de “Tarantino tropical”. Tarantino, como se sabe, apropriou-se da blaxploitation, dos filmes de kung-fu, etc — e do western, não nos esqueçamos.
é de se reparar que sempre que se fala de apropriação/subversão de gênero hollywoodiano o que entra na jogada é sempre filme de tiro ou de luta. embora Kleber use elementos melodramáticos, e até sinalize que é possível deixar a emoção transbordar, ela é contida no final do filme. resta o esquecimento, e etc (sobre isso vocês podem ler críticas melhores do que a minha). Ainda Estou Aqui é um melodrama bem-contado (e endinheirado, mas Agente Secreto também é) que provoca seu efeito final no espectador: se seus olhos não umedeceram com o final de Fernanda Montenegro, arrisco dizer a cuidar com mais carinho do seu coração. haveria em Agente Secreto uma provocação a Ainda Estou Aqui pela negação do melodrama, ainda que os dois queiram discorrer sobre esquecimento? — provavelmente não, porque um filme demora anos para ser feito. porém, Central do Brasil, vejam bem, é um belo melodrama (como Cidade de Deus, que é mais melodrama do que filme de gangue). o meu ponto é: ninguém fica alardeando que Ainda Estou Aqui é uma apropriação do gênero melodramático. é como se não existisse apropriação do melodrama, porque é o gênero mais corrente e mais longevo, atravessando as artes e mídias — é argamassa das séries de streaming, das novelas, dos doramas e também das novelinhas do kwai.
aqui vou entrar em terrenos perigosos, conto com você, meu leitor, para discutir comigo se eu estiver errada — escrevo esse texto sem ter lido nenhuma referência, porque de bibliografia basta a minha dissertação (que não é sobre melodrama, nem sobre western).
o melodrama foi um gênero usado por hollywood para fazer filmes para o público feminino. a mocinha, o antagonista, a história de amor impossível. embora não seja exatamente uma fórmula condicionada ao gênero feminino (é antiquíssimo, operístico e teatral) , ainda se sente esse odor de perfume floral, muito feminino, quando se pensa em melodrama. já o western é um gênero de filmes que foi feito para o público masculino: pistola, grandes-angulares do deserto vazio, fuga da família, matança de índio.
fico às vezes bisbilhotando esses novos críticos de cinema do tuíter e do letterboxd e noto, como é comum (mais comum do que talvez eles pensem), uma devoção ao western. eu que nunca fui muito de western, eu que sou apenas uma menina com uma primeira memória que remete a barbie e não a tubarão ou pistolas, para falar a verdade, nunca vi grande coisa nesse gênero. vi os imperdíveis, algum spaghetti e… quer saber… para mim já tá bom. então, eu vou tentar ser piedosa com quem também não vê muita graça em melodrama, em permitir que lágrimas açucaradas aflorem de seus olhos e um soluço se engasgue na sua garganta (é uma pena!).
não, não vou ser piedosa. porque não estamos em pé de igualdade, ou já estamos? melodrama é sinônimo ainda de baixa cultura e de feminilidade, de um gênero menor, enquanto o western (que, deus me perdoe, foram produzidos milhares de westerns, a maioria quase todos iguais tal qual os melodramas e as romcoms) ganhou um verniz de um gênero maior e melhor. um nome fica aparecendo no meu pensamento enquanto escrevo: Borges. eu amo Borges, mas o homem inseriu a pistolagem e o caubói na literatura latino-americana e deu aval para que ela se infiltrasse como se fosse coisa nossa. ora, o que é mesmo uma coisa nossa? de tudo que falo nesse texto, nada. e também, tudo, tudo é coisa nossa.
talvez o problema com o melodrama seja a presença massiva das novelas na cultura brasileira: mas isso é um problema? não, não é, e é também, para quem quer subverter o status quo. melodrama é o gênero mestre em criar uma identificação entre espectador-personagem, e nós vivemos muitos anos reproduzindo os excessos que víamos na televisão. ou as gestualidades exageradas é que reproduziam nossa expressividade dramática? perguntas inúteis — não podem ser respondidas porque são falsas dicotomias, problemas inventados pela linguagem que, às vezes, não alcança nada além de palavras flutuantes.
já há algum tempo penso no drama e nas tintas carregadas do nosso país. estive em Belém um pouco antes do Círio, e não é possível ignorar a força melodramática convertida em catolicismo, que se vê nas imagens de Nazaré nas casas e prédios decoradas com flores e fitas coloridas, nas estrelas luminosas penduradas nas árvores das avenidas. tudo é exagero, é drama. pense no drama de ter que segurar na corda do Círio para que a sua promessa seja paga: um aval a húbris. é o que se passa no carnaval. inimigos do minimalismo, afeitos às loucuras, aos brilhos e fantasias. estive em Cali, na Colômbia, e estendi esse fio de pensamento à cultura latino-americana: o que é a salsa, meus amigos, canções de amor. o que é o samba, o pagode, canções de amor. a lambada. a moda de viola, o sertanejo, a sofrência, o piseiro. amor ardente, passional, louco, apaixonado, sofredor. derramadíssimo. melodramático.
pensei nisso quando li o último conto de Triângulo das Águas de Caio Fernando de Abreu. que barroco, pensei. que bicha maluca, dramática, não economiza nenhum adjetivo, e sabe disso, faz com consciência. antes de Caio F, li Poenciá Vivêncio de Conceição Evaristo e, entre as grandes diferenças temáticas dos dois escritores brasileiros, encontrei em comum a tendência à poesia, a uma linguagem que se delicia nas palavras, que recusa a temporalidade linear, uma coisa carregada, sem medo de dizer quase tudo. barrocos, como Hilda, Clarice? por outro lado, há uma grande tradição brasileira que prioriza a secura, que manda cortar os adjetivos e as metáforas, que diz que a pedra é só a pedra e não a dureza impossível dela. epítome disso na literatura é Vidas Secas de Graciliano Ramos — a gente aprende na escola: seco como o sertão, conciso, navalha na língua tirando tudo que é desnecessário. mas é de Graciliano também o Angústia, que romance né meus amigos, carregadíssimo, cheio de adjetivos, com as memórias entrando no meio do fio narrativo, assim como Poenciá e Triângulo. para debulhar a paranoia, o amor passional, a inferioridade do sujeito, Graciliano carrega nos vermelhos, joga fora seu método de Vidas Secas.
excesso. que grafia estranha a dessa linda palavra. ultrapassar um limite, é o que ela quer dizer. qual limite? quem define esse limite?
quando se fala em apropriação do melodrama no cinema, não se fala em Spielberg ou em Walter Salles, mas sim em Almodóvar e Todd Haynes. os zooms de Haynes, os planos próximos de rostos em Almodóvar. as músicas. assistir a um filme de Almodóvar é, para mim, como estar em casa: terreno conhecido, mulheres malucas que gritam e falam sem parar, músicas cantadas no gogó com emoção, reviravoltas intensas tal novela, excesso de cores. e o que liga Almodóvar e Haynes (e Caio F)? ora, são gays. barrocos, melodramáticos, excessivos. e, assim como Tarantino, ou o nosso Tarantino tropical (ai, dor!), também são irônicos. porém — não, ainda não estamos em pé de igualdade — não se celebra tanto o pastiche do melodrama como, também, uma possibilidade subversiva.
para mim, o final de O Agente Secreto é o interrompimento do fluxo da emoção. a recusa ao excesso, à narrativa, às coincidências ridículas, às lagrimas. ao feminino — mas aquele que carrega o tal perfume floral, o feminino da drag queen. Kleber, ao querer deixar claro o dicurso sobre a memória invisibilizada das mortes na ditadura no finzinho do filme, deixa o personagem do filho destituído de fibra moral, da sua ligação pessoal com aquela história contada por 2h e tanto. sobra, então, Tubarão — o filme favorito do diretor. retornamos, então, ao mundo dos meninos, eles e seus desejos de caça e de pistola.




Ainda não vi o filme, mas já cravo que sua crítica é certeira.
Estava com saudades dos seus sashimis na minha caixa de entrada <3