em 2026, não vou mais fazer diário de leituras… vou tentar outra coisa por aqui, escrever ficção. essa é a seção… engasgos*
na esteira, vi-a. tinha um modo de se mover que lembrava uma antiga ex. como se ela tivesse, então, se materializado ali quinze anos depois, ou como se houvesse um molde paraquele tipo de sapatão. é a segunda opção, o molde, magra e de modos angulares, braços cruzados, o nariz de gavião, o formato do rosto de quem usou óculos a vida toda. cadê seus óculos? talvez tenha feito cirurgia de correção de retina ou usa lentes. olhei-a, talvez tão insistente, que ela sentiu meu olhar na sua nuca descoberta, no músculo do bíceps que já saltitava, e ela olhou-me de volta. envergonhei-me. voltei-me ao tempo a conta-gotas que ia para nunca mais retornar do cronômetro do painel. tempo, distância, calorias, bpm. fingi ignorar, segundos mudaram o cursor dos minutos, volto a olhá-la. ela me olha, também.
me fita. me olha. me observa. me vê. talvez falte um verbo específico para o olhar, aquele de espichar, de ir e voltar, de baixar os olhos e encontrar o o outro olhar, congelar e, mais uma vez, correr para longe, disfarçar. discernir, segundo o dicionário, é ver com clareza, depois de separar o objeto de outros, ou ver no próprio objeto um aspecto diferente dos demais. ela me discerniu, frases feias — usa-se discernir assim: discerni, entre os morros, a árvore. discerni, entre os aparelhos, ela a me olhar. eu que a discerni: tinha um aspecto diferente dos demais, o quê?, algo especial. lampejo. famosa olhadela. à primeira vista. no fone de ouvido, dei-me conta que tocava essa da Kylie Minogue: love at first sight. bom demais para ser verdade, mas é verdade. o acaso às vezes escolhe nossas trilhas. percorria no olhar suas tatuagens pequenas no bíceps, no tríceps, nos pulsos, talvez ela tenha alguma nas costas, coberta pela camiseta larga, e ela me encontra novamente a investigá-la, o que olha em mim? minha tatuagem do tórax?
cenário armado: seria possível? logo eu? eu que ninguém…! alguém me desejar, assim, aqui, nesta academia? uma mulher, gordinha como eu, na academia, sendo olhada por outra mulher. será isso mesmo, pergunto-me, suando — duplamente. seguro as mãos nas hastes magnéticas e o bpm acusa: 200 batidas por segundo. vou morrer, Kylie. creio que é isto, já passada dos anos jovens, apaixonar-se é infartar. o coração a bombear rapidamente até perder o fôlego, explodir. morrer, finalmente. morrer de amor, suada, na academia. triste fim de julieta, sem saber o nome da sua amante.
então, ela sumiu. tenho medo de morrer de infarto, avc, queda de altura, chagas, artéria entupida. estiquei o pescoço à esquerda, à direita, nada, desapareceu. minha cabeça tonteou, olhei os números trêmulos no painel: 200 bpm, é agora, morri por conta de uma ilusão: ela sequer existia. delírio. não. porque tinha tido um lovezinho at a first sight, porque tinha pensando se já existiu sexo lésbico espontâneo no banheiro da academia. será possível que eu pensava nisso, banheirão, enquanto ia meu coração pras alturas? sei que aconteceu o que eu mais temia: espatifada no chão da academia. primeiro senti minhas pernas trançando, voando sobre a esteira e retardando-se, sem conseguir acompanhá-la. não sei se a minha queda foi infarto, desmaio ou minhas pernas tinham congelado e não mais seguiam o óbvio comando do sempre andar que se impõe na esteira. ah sim! sempre andar, mas nunca sair do lugar, eis a lógica, mas nunca deixar de andar, sem sentar-se no meio-fio ou distrair-se com qualquer coisa ou desistir e retornar para casa. meu maior medo, antes mesmo de infarto ou chagas, era o de cair da esteira, bunda no chão, passar essa vergonha. ninguém tem esse medo? ou só eu sou assim?
quando me vi no chão da academia, bunda dolorida, zonza, focalizei bem a luz branca lá do alto e fingi desmaio — ou talvez eu tenha realmente desmaiado. de qualquer forma, estive desacordada por um bom tempo, tempo suficiente para apagar a vergonha, dissimular meus rastros, não ver a reação de ninguém, nem dela, minha first sight, nem da mulher que gritou pedindo ajuda aos instrutores que nunca nunca iam ajudar ninguém. não fiquei acordada para ver se, dessa vez, perigando alguém morrer ali, eles iam finalmente notar que eu existia e prestar socorro.
acordei com outra luz branca: graças a deus, a do hospital. estava já na maca, com alguém me enfiando uma lanterninha debaixo da minha pálpebra. olhei para trás e entendi com que rapidez eu tinha passado pela triagem: nunca antes tinha me acontecido isso, porque ia sempre ao pronto-socorro com queixas um pouco ínfimas e banais, tipo quando achei que um líquido escorrendo do meu nariz poderia ser o meu cérebro derretido, mas era apenas sinusite. finalmente entrava no hospital como convidada de honra, confirmada pela pulseira vermelha no meu pulso. dois eventos extraordinários me aconteciam: a gravidade digna do meu corpo e do meu espírito, inventar uma paixão e um mal-estar tão bem que os outros até poderiam acreditar. não era apenas um delírio.
minha primeira pergunta à medica era se eu tinha infartado, não, ela riu. está tudo bem agora, seu coração, sua pressão, sua saturação. o que aconteceu então, perguntei. isso nós vamos ter de investigar. labirintite, desidratação, anemia, síncope vasovagal, ataque de pânico, hipoglicemia, arritmia, hipertermia, hipotermia? a lista era longa e para descobrir tinham que saber o que comi, se é que comi, se bebi água, se é que bebi, se foi exercício em demasia, se tenho problema cardíaco, e na sua família?, se tinha calor, se tinha frio (como?), se ficava zonza quando andava de carro, se algo andava me estressando. mas tudo isso ficaram de ver depois, quando estivesse bem, depois do soro, e cuidassem dos meus ferimentos. ferimentos? sim, eu tinha me arrebentado toda lá na esteira, disseram, a academia é um lugar muito propício para bactérias, é bom tomar um antibiótico. mas você já está bem, sorriu a médica, e foi o último sorriso dela e a última vez que a vi: entrava nesse momento uma maca de alguém sangrando com uma faca estancada no estômago.
ouvindo os gemidos da vítima, pensando no horror dela e na minha sorte, quis dizer para me deixarem quieta: talvez tudo isso tenha sido fruto de uma paixão tardia, mas eu não sei como contar a vocês algo assim, tão ridículo, tão cafona. causas ínfimas e banais, novamente. além do que, nem mesmo eu acreditava que era essa a causa, mas era bom cair no fosso do delírio. melhor ainda, era ficar quieta e ser encaminhada para todos os exames possíveis, que alguém visse meu coração por dentro, enxergasse-o trabalhando incansavelmente, porque algum dia ele poderia fazer como minhas pernas na esteira e simplesmente não querer mais andar, andar, andar sem chegar a lugar algum.
depois do soro, e de cuidarem mais ou menos das lacerações, pedi para que me liberassem porque agora a médica atendia um homem que tinha levado um tiro, e eu não aguentava mais comparar a minha pobre dor, tão ínfima e banal, com as das outras pessoas que entravam ali sem passar pela triagem. mas fora esquecida ali, com razão, e por isso, tive que eu mesma decidir por ir embora, fugindo de alguém que por ventura me acusasse de sair sem receber alta.
quando andava pela rua com a bunda dolorida, indo até a esquina para chamar o uber longe dos seguranças, exercitando o movimento quase perdido das pernas, lamentei minha paixão perdida: depois do meu vexame, nunca mais voltaria à academia, e nem mesmo ao hospital (sair sem dar alta dá cadeia?). lamentei minhas escolhas, o momento em que a luz da academia entrou dentro da minha retina e tomou de branco o espaço interno da minha cabeça. como uma cegueira que eu buscasse, e de tanto desejo, acabasse acontecendo, e acontecendo, acabava com o que sequer se iniciava.
*o que é uma seção? bem, parece que você pode se inscrever só para uma seção, se desejar, ou não receber todas seções — mas não sei direito como funciona. bem, fica aí a ilusão da democracia.

