2002
guardar a memória nos dentes
em 2002, o brasil foi penta e o lula foi eleito no primeiro turno. eu tinha os meus onze anos e enfrentava a terrível quinta série. adeus às professoras únicas, agora enfrentávamos as matérias divididas, sinais tocavam a cada aula, gerando burburinhos de excitação cinco vezes ao dia no corredor em frente à sala. nossa sala era a mais populosa da pequena escola de bairro, por isso era a última da escola. as janelas de vidro glissado tinham bordas de alumínio pintadas de amarelo. descascadas. eu brigava na sala com o l. pinheiro, um menino de família católica que tinha 7 irmãos, todos estudando na mesma escola, os pinheiros diria se fosse um romance de ferrante, e que defendia o psdb com unhas e dentes. eu gritava com ele e defendia o lula. minha tia tinha o carro inteiro adesivado com o 13 e fazia campanha. no intervalo, eu dançava dirty da christina aguilera na quadra da escola e também aserehê do rouge. em casa, escutava beijo molhado em loop, imaginando finalmente dar o meu beijo molhado em alguém, e depois i'm slave 4 you da britney, imaginando que o mundo terminaria daquele jeito. também ouvia complicated da avril lavigne e tentava copiar o lápis grosso sem nunca conseguir, e era tudo tão complicated. sofria de amor de verdade, e ele doía, doía no intestino. negociava com o meu intestino que já àquela altura sofria de prisão de ventre. o hit da madonna era day another day, música tema do 007, em que ela canta sussurrando: sigmund freud, analyse this, mas eu não entendia inglês, nem que o meu intestino tinha alguma coisa a ver com a minha neurose. foi ano que lançou s1mone, um filme esquisito que prenunciava a inteligência artificial, talvez melhor do que qualquer um até hoje. a copa era no japão e na coreia e por isso tínhamos que acordar de madrugada e ir às aulas com olheiras. os meninos usavam cabelo-ronaldinho. passava o clone na tv, e a gente comprava aquelas pulseiras-anél da jade e dançava dança-do-ventre na festa da escola e imitava a mel tomando perfume de abstinência no banheiro e a regininha drogada. no final do ano uma multidão numa pequena festa de halloween gritou beija beija beija para mim e para um menino, e envergonhados, demos um selinho. pensávamos que agora tínhamos que namorar, o que significava fazer os trabalhos da sala em duplas e ir no minúsculo e ridículo carrossel do shopping de mãos dadas suando frio, e isso perturbou a ambos. ele deu um jeito de me ignorar, eu dei um jeito de ficar muito brava e de terminar tudo. pude voltar a sofrer de amor. eu era pequena, muito leve, e tinha cabelos longos. a pior coisa que existia no mundo era o fernando henrique cardoso e a frança porque eu me lembrava ainda de como o brasil perdeu a copa de 98, quando eu tinha só 8 anos. eu me lembro mais da copa de 98 do que a de 2002. os traumas eu coleciono com gosto. israel e palestina estavam em guerra. falava-se em ALCA e FMI. ainda não sabíamos quando iam achar o osama bin laden, e minha cidade sofria com a vice após o assassinato do primeiro prefeito petista em anos. eu mudava meus templates e aprendia htlm básico para enfeitar meu blog que talvez se chamasse semasas. minha escola fazia promoção em cima de textos que eu escrevia sem nenhuma consciência juntando advérbios pomposos que terminavam em mente juntos na mesma frase, fundamentalmente, socialmente, e etc. eu só tinha 11 anos, e tinha tanto pela frente, o mundo era um jogo aberto que eu tinha explorado só uma pequena parte. o lula venceu as eleições, finalmente, pela primeira vez. e se a gente ganhou o penta, seria fácil ganhar o hexa.
é 2026, eu tenho 35 anos, madonna lançou o confessions II, o brasil não passou das oitavas de final. perdeu de 2 gols pro haaland. palestina foi praticamente dizimada por israel. a pior coisa do mundo é qualquer um da família bolsonaro. hoje eu que sou a professora e não posso olhar para a janela imaginando beijos e outros sonhos impossíveis porque preciso lembrar o que devo ensinar. esperamos o quarto mandato do lula. ele não vai nos salvar, mas é quem a gente precisa que esteja lá no alto mais uma vez. sou solteira como quando tinha 12 anos, por vontade própria e dos outros também, e é um alívio não ser obrigada a fazer dupla com a mesma pessoa, mas também um pouco triste ter de evitar o caminho dos carrosséis. evito a todo custo usar advérbios que terminam em mente mas tenho muitos outros vícios como vocês devem perceber. escrevo no substack que envia emails automaticamente sem entender bulhufas como. se a gente ganhou o penta, não é fácil ganhar o hexa. o hexa toda copa vira pó, e a gente fica doído de ter acreditado de novo que agora-vai. se o lula venceu três mandatos não quer dizer que vai ser fácil o quarto. ninguém vai nos salvar e a britney hoje gira no instagram com facas, mas está livre ao menos. é preciso sempre pensar na liberdade, mesmo que seja só um pouco, enquadrada pelos limites verticais da câmera de celular. o mundo, não por isso e também por isso, parece cada vez menor. o hexa não veio em 2026, mas o lula vai-ter-de-vir. confessions II é perfeito. o penta ainda circula na nossa memória como no sonho que a madonna inventou botando ronaldofenômeno pra dirigir um bugue e o ronaldinhogaúcho no banco de carona cantando music no jogo da final da copa do mundo. minha esperança reside parte entre os dentes dos sorrisosabobalhados deles e parte no diastema da madonna. meus dentes ainda são os mesmos.



gente acho que eu quis dizer q o lula foi eleito pela primeira vez. perdao
Eu amei